A disputa pelo cérebro do processo: Quem vai comandar os agentes dentro das empresas?

Por Sergio Favarin*

 

O software corporativo foi construído para registrar o que acontece dentro de uma empresa. Uma venda é registrada, uma compra aprovada, um pagamento processado, um cliente atendido. A Inteligência Artificial (IA) Agêntica começa a inverter essa lógica. O sistema não apenas registra uma decisão tomada por alguém: ele passa a interpretar uma situação, consultar diferentes fontes, acionar outros sistemas e executar parte da decisão. Essa mudança aparentemente simples desloca o centro de poder da arquitetura tecnológica. Se os agentes atravessam aplicações e processos de ponta a ponta, alguém precisa coordenar essa travessia. E é justamente por esse papel – o de cérebro do processo – que algumas das maiores plataformas de software corporativo começaram a competir.

SAP e Salesforce talvez sejam os melhores exemplos dessa mudança. Durante anos, houve entre elas uma divisão relativamente clara. A SAP consolidou-se no núcleo transacional, no qual compras, finanças, produção, logística e recursos humanos se transformam em processos e registros. A Salesforce construiu sua força na fronteira com o cliente, das vendas ao atendimento. A IA Agêntica começa a corroer essa separação porque um agente não precisa respeitar a fronteira entre ERP e CRM: pode receber uma solicitação de um cliente, verificar estoque, consultar condições comerciais, iniciar um pedido, acionar logística e acompanhar o pagamento. Nesse cenário, a pergunta deixa de ser qual sistema possui determinada informação e passa a ser qual plataforma decide o que deve acontecer a seguir.

A resposta da SAP ganhou contornos mais claros com sua estratégia de Autonomous Enterprise, baseada na combinação de aplicações, dados e agentes Joule. A companhia quer transformar a enorme quantidade de contexto acumulada nos sistemas empresariais (regras, transações, aprovações e exceções) em combustível para agentes capazes de executar processos. A Salesforce avança na direção oposta. Partindo do relacionamento com o cliente, posiciona o Agentforce como uma plataforma capaz de coordenar agentes e workflows também fora do CRM, usando MuleSoft, Data 360 e protocolos de interoperabilidade. A SAP caminha, portanto, de dentro para fora; a Salesforce, de fora para dentro. As duas acabam chegando ao mesmo território: a camada que conecta contexto, agentes e execução.

Esse cenário ganha importância porque o valor da IA está migrando do agente isolado para a orquestração. Segundo a KPMG AI Quarterly Pulse Survey, o percentual de organizações que já implementaram ao menos alguns agentes de IA quase quadruplicou em dois trimestres, saltando de 11% para 42%. Isso ajuda a entender por que a arquitetura agêntica passa a ser vista como uma combinação de diferentes camadas (modelos, dados, integração, orquestração e governança), para as quais construir ou comprar deixam de ser alternativas mutuamente excludentes, e por que controlar a orquestração se tornou tão estratégico: uma organização não precisa necessariamente fornecer todos os agentes se sua plataforma for aquela que determina quais deles podem entrar em um processo, quais dados podem acessar, quando devem agir e quando precisam devolver uma decisão a um ser humano.

É por isso ainda que o antigo dilema entre construir ou comprar tecnologia precisa ser revisto. Dados proprietários, regras críticas, engenharia de contexto e mecanismos de governança podem exigir maior controle interno; modelos fundacionais, infraestrutura e capacidades padronizadas podem ser adquiridos; agentes especializados e integrações complexas podem ser codesenvolvidos. Não existe uma resposta única porque a própria arquitetura tornou-se modular. O risco está em tratar todas essas escolhas como equivalentes. Comprar um modelo é diferente de entregar a um fornecedor a camada que conhece as regras, exceções e relações entre processos críticos. Agentes podem ser substituídos, porém renunciar ao controle sobre a arquitetura que os coordena é uma decisão muito mais difícil de reverter.

Há ainda uma questão de governança. Quanto mais o agente se aproxima do núcleo operacional, menor é a tolerância ao erro. Uma resposta imprecisa de um assistente pode ser corrigida, mas um erro em um agente autorizado a interferir em fechamento financeiro, compras, folha de pagamento ou concessão de crédito pode desencadear uma sequência de consequências. A própria SAP tem enfatizado esse problema ao apresentar sua visão de empresa autônoma. Nesse ambiente, observabilidade, identidade dos agentes, trilhas de auditoria, políticas de acesso, limites de autonomia e mecanismos de intervenção humana deixam de ser acessórios e passam a fazer parte do desenho do processo.

Para os CIOs, isso muda a maneira de avaliar fornecedores. Não basta perguntar quem possui hoje o agente mais sofisticado ou a maior quantidade de funcionalidades. É preciso saber se a arquitetura permite combinar agentes próprios e de terceiros, preservar dados e contexto estratégicos, substituir componentes, operar entre diferentes plataformas e manter uma camada consistente de governança. Protocolos abertos como MCP (Model Context Protocol) e A2A (Agent2Agent) podem reduzir a dependência de um único ecossistema, mas não eliminam a questão central: alguém continuará precisando definir as regras pelas quais agentes, aplicações, dados e pessoas interagem. É aí que reside uma parcela crescente do poder tecnológico dentro da empresa.

A concorrência entre SAP e Salesforce é, desta forma, menos uma nova batalha entre ERP e CRM do que um sinal de transformação do próprio software corporativo. Durante décadas, essas plataformas competiram sobre onde os dados seriam armazenados e onde os processos seriam executados. Agora começam a concorrer por algo mais valioso: onde as decisões serão coordenadas. Na economia dos agentes, a vantagem competitiva dificilmente estará em possuir todos eles, porém sim em decidir quais podem agir, sobre quais dados, sob quais regras e com qual grau de autonomia. O verdadeiro prêmio dessa corrida não é o agente mais inteligente. É o direito de ocupar o cérebro do processo.

 

* Sergio Favarin é Business Vice President da GFT Technologies no Brasil

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