Por Lidiane Mazzoni*
Assim como muitos de vocês, dediquei tempo no final do ano à elaboração de um plano de metas. Em meio a vídeos e metodologias, um conselho me chamou a atenção: a importância crítica de mapear os recursos necessários para atingir um objetivo. Aprender um idioma, por exemplo, vai muito além de marcar a aula na agenda. Exige tempo de estudo, deslocamento e investimento em material.
Esse raciocínio simples é a chave para analisarmos os chamados “destaques” para a saúde suplementar em 2026. Listar tendências ou eventos de 2025 é insuficiente. É preciso identificar os alicerces institucionais e regulatórios sem os quais essas metas se tornam meros desejos, expondo operadoras a riscos desnecessários.
Traduzindo para a nossa realidade, isso significa que:
1) Não há novo modelo de fiscalização sem financiamento estrutural da ans. A incapacidade crônica de investimento na Agência gera uma regulação assimétrica, onde a letra da norma nem sempre se traduz em fiscalização isonômica. O risco direto? Insegurança jurídica e distorções concorrenciais que penalizam os players mais comprometidos com a compliance.
2) Não há incorporação transparente de tecnologia sem participação social efetiva. Os processos da CITEC e da CONITEC precisam evoluir de meras consultas formais para ferramentas robustas de diálogo. O regulador que souber incorporar esse insumo de forma metodológica não só tomará decisões mais sólidas, como pode se tornar uma referência global.
3) Não há cenário sustentável para cartões e novos modelos sem arquitetura institucional clara. A inovação de produtos esbarra na falta de desenho regulatório que defina direitos, obrigações e limites com precisão. Sem isso, a inovação traz consigo o risco de judicialização e de desconfiança generalizada no instrumento.
4) Não há auditoria médica previsível sem uma governança estável no CFM. A crescente politização do Conselho fragiliza a base técnica dos pareceres que fundamentam a prática dos auditores, gerando atritos operacionais dispendiosos e litígios que poderiam ser evitados.
A boa estratégia transforma restrições em vantagem. O “novo modelo de fiscalização”, por exemplo, deve ser visto pelas operadoras como uma oportunidade para automação de compliance e aprimoramento da gestão de reclamações, fortalecendo a relação com o beneficiário e o valor da marca.
A telessaúde é o caso emblemático: um avanço incontestável, mas que ainda viaja em uma estrada de terra, com “tijolos” sendo assentados a cada momento – como a recente autorização da ANVISA (dezembro de 2025) para receitas de controle especial e sujeitas à retenção emitidas em meio eletrônico. Cada um desses tijolos é um recurso que precisava estar no plano.
Saúde é mais que uma lista, é um Compromisso Estratégico. 2026 é um ano eleitoral. Será crucial avaliar propostas políticas pelo seu potencial de criar ou destruir estruturas. Saúde é um ecossistema complexo, onde cada ação tem reverberações sistêmicas.
Portanto, o plano de metas do setor para 2026 deve incluir, como prioridade zero, o advocacy institucional por essas melhorias estruturais. É um investimento na própria base de operação do mercado. É preciso desenhar o caminho para chegar nos objetivos. Temos as melhores soluções, mas sem desenhos institucionais adequados é só mais um desejo e não uma meta. Devemos exigir e apoiar medidas que vão além da superfície e ataquem as causas profundas da ineficiência.
Porque no final, a verdadeira meta não é apenas sobreviver ao próximo ano. É construir um mercado mais previsível, sustentável e, portanto, mais lucrativo para todos que operam com seriedade. Essa é a responsabilidade que temos com nosso negócio e com o sistema.
* Lidiane Mazzoni é advogada especialista em regulação no setor de saúde suplementar e professora da Conhecer Seguros






