Brasil lidera estresse corporativo na América Latina, aponta pesquisa da Aon e TELUS Health

Quase metade dos trabalhadores brasileiros (45%) se sente sobrecarregada ou sob estresse constante no trabalho, o maior percentual entre os dez mercados latino-americanos analisados pela Pesquisa de Saúde Mental 2026, realizada pela Aon em colaboração com a TELUS Health. Entre os profissionais em situação grave de sofrimento psíquico, a perda de produtividade pode chegar a 93 dias úteis por ano, o equivalente a aproximadamente quatro meses.

O levantamento também mostra que 80% dos brasileiros trabalham mesmo se sentindo física ou mentalmente mal pelo menos um dia por semana, índice superior à média regional, de 74%. Além disso, 43% relatam ansiedade e 36% apresentam sintomas depressivos. Para 34% dos entrevistados, a saúde mental prejudica o desempenho profissional.

O Brasil registrou 65,5 pontos no Índice de Saúde Mental (IHM), classificação que indica um cenário de pressão e risco. Ao todo, 72% dos profissionais apresentam risco moderado ou alto de problemas relacionados à saúde mental. A sensação de solidão também preocupa: 33% dos trabalhadores afirmam se sentir sozinhos, o segundo maior índice da região.

O tema ganha ainda mais relevância com as mudanças na NR-1, norma que prevê a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das organizações. “Não estamos falando apenas de cuidar das pessoas, mas de proteger o valor e a continuidade do negócio. Quando quase metade da força de trabalho opera sob estresse constante, o impacto aparece na perda de eficiência, nos erros operacionais e na rotatividade de talentos”, afirma o head of Human Capital para o Brasil na Aon, Fabio Martinez.

Segundo o executivo, as empresas precisam transformar as informações sobre saúde mental em ferramentas de gestão, revendo a definição de metas e preparando as lideranças para lidar com o tema. Um dos principais obstáculos identificados pela pesquisa é o estigma associado aos problemas de saúde mental. No Brasil, 65% dos trabalhadores afirmam que se sentiriam mal consigo mesmos caso enfrentassem um transtorno mental, o maior índice entre os países pesquisados e 11 pontos percentuais acima da média regional.

Além disso, 28% dizem que não conseguiriam conversar abertamente com gestores ou colegas sobre os impactos do trabalho em sua saúde mental. Outros 63% temem sofrer limitações na carreira caso a empresa descubra que enfrentam algum problema nessa área.

A dificuldade também aparece entre os gestores. Cerca de 34% dos líderes brasileiros relatam problemas para administrar as necessidades emocionais e psicológicas de suas equipes, percentual próximo à média regional, de 35%. “A norma exige diagnósticos precisos dos riscos psicossociais, mas temos de um lado gestores sem preparo para acolher a equipe e, do outro, colaboradores que hesitam em expor o esgotamento porque se sentiriam mal consigo mesmos ao admiti-lo. Para que o compliance aconteça de fato no dia a dia, o RH precisa atuar na capacitação das lideranças e na construção de um ambiente de segurança psicológica real”, analisa Martinez.

No aspecto financeiro, 63% dos trabalhadores brasileiros afirmam ter uma reserva de emergência, ante 50% na média regional. Ainda assim, 27% apontam as finanças pessoais como principal fonte de estresse. A perspectiva de futuro também preocupa: 8% não demonstram otimismo em relação aos próximos anos, o dobro da média latino-americana, de 4%.

O custo do tratamento é outra barreira: 39% dos brasileiros dizem não buscar apoio para a saúde mental por causa do preço. Além disso, 67% preferem atendimento presencial e 14% consideram que os benefícios oferecidos pelo empregador não atendem às suas necessidades. A pesquisa também destaca a importância do suporte à saúde mental para atrair e reter talentos. Na América Latina, 42% dos colaboradores consideram esse apoio mais importante do que um aumento salarial de 10%.

Os dados foram coletados em fevereiro de 2026, por meio de pesquisa on-line com 10 mil trabalhadores de dez mercados latino-americanos, sendo 2 mil brasileiros. O Índice de Saúde Mental foi calculado a partir das respostas dos participantes, considerando que pontuações mais altas indicam melhores condições de saúde mental e menor risco. A média regional reúne resultados da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Panamá, Peru e Porto Rico.

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