Seguros ganham papel estratégico na adaptação da infraestrutura aos riscos climáticos

O aumento na frequência e na intensidade de eventos climáticos extremos está mudando a forma como cidades, governos e empresas planejam investimentos em infraestrutura no Brasil. Nesse cenário, o setor de seguros e resseguros passa a exercer uma função estratégica, não apenas para indenizar prejuízos depois de uma catástrofe, mas também para antecipar riscos, proteger ativos e contribuir para a viabilidade financeira de grandes projetos e concessões.

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 evidenciaram a dimensão desse desafio. Em poucos dias, foram registrados volumes de chuva de até 500 milímetros, afetando mais de 2 milhões de pessoas. Segundo estimativa da Munich Re, as perdas na região chegaram a cerca de US$ 7 bilhões.

Mais recentemente, Belém também vivenciou os efeitos da concentração de eventos climáticos extremos. Entre os dias 19 e 20 de abril, a capital paraense registrou mais de 150 milímetros de chuva em apenas 26 horas. O volume correspondeu a quase metade da média esperada para todo o mês de abril, de 450 milímetros. Ao longo do mês, o acumulado ultrapassou 550 milímetros. A chuva intensa, combinada com períodos de maré elevada, provocou alagamentos, interrupções no fornecimento de energia e problemas de mobilidade urbana.

Para o executivo do mercado de seguros e Associate Director da Howden Specialty, Leandro Ramirez da Silva, o episódio de Belém mostra de maneira concreta como a agenda climática passou a fazer parte da realidade financeira de cidades, empresas e governos. Segundo ele, a capital paraense sediou um dos principais debates mundiais sobre mudanças climáticas e, pouco tempo depois, enfrentou na prática um evento relacionado aos riscos discutidos nesse contexto.

A avaliação é que o risco climático deixou de ser apenas uma preocupação ambiental e passou a integrar as decisões econômicas. É justamente nesse processo que o mercado de seguros ganha relevância, ao transformar riscos físicos em métricas financeiras que podem ser avaliadas, precificadas e transferidas.

Esse movimento dá força ao que especialistas chamam de economia do risco climático. Projetos de infraestrutura sem medidas de adaptação e proteção financeira ficam mais vulneráveis a interrupções operacionais, aumento do custo de capital, perda de atratividade para investidores e até dificuldades para contratar novas coberturas.

As perdas provocadas por catástrofes naturais mostram o tamanho do problema. Estimativas da Munich Re indicam que os desastres naturais provocaram aproximadamente US$ 224 bilhões em perdas globais em 2025.

No Brasil, o histórico também revela um grande espaço para ampliação da proteção. Desde 1980, as catástrofes naturais provocaram cerca de US$ 43 bilhões em perdas econômicas no país, considerando valores corrigidos pela inflação e excluindo o setor agrícola. Apenas 5% desse montante possuía cobertura de seguros.

Para Silva, o baixo nível de proteção evidencia que o seguro precisa ser encarado de maneira mais ampla. Além de possibilitar a recuperação financeira após um evento extremo, as coberturas podem estimular investimentos em prevenção, planejamento urbano e tecnologias de adaptação.

A busca por alternativas para reduzir o chamado gap de proteção tem impulsionado o uso de dados, modelos avançados de risco e novas modalidades de seguros. Entre elas estão os seguros paramétricos, que podem oferecer uma resposta mais rápida diante de determinados eventos climáticos.

Nesse modelo, o pagamento da indenização ocorre quando um parâmetro previamente estabelecido é atingido. O gatilho pode ser, por exemplo, um determinado volume de chuva ou nível de maré. Dessa forma, não é necessário aguardar todo o processo tradicional de regulação para que o recurso seja disponibilizado, o que pode acelerar a resposta emergencial após uma catástrofe.

A utilização desse tipo de solução já apresenta exemplos internacionais. Um deles foi desenvolvido em Miami-Dade County, nos Estados Unidos, para os bairros de Little River e Allapattah. O estudo e a estruturação do programa começaram em 2023 e foram concluídos em dezembro de 2024. O resultado foi uma apólice preventiva anual, com vigência entre julho de 2024 e junho de 2025. O projeto foi financiado pela Miami Foundation, responsável pelo pagamento de um prêmio anual de US$ 75 mil, além das taxas aplicáveis.

A estrutura de gerenciamento de riscos estabelecida para a iniciativa garantiu limite de cobertura de até US$ 600 mil. A proteção alcançou uma área de 25 milhas quadradas na região interna, chamada de inner area, e 59 milhas quadradas na área externa, denominada outer area.

Experiências como a de Miami indicam possibilidades que podem ganhar espaço no Brasil após a COP 30. A combinação entre planejamento urbano, recursos financeiros, dados e transferência de riscos pode ser determinante para aumentar a resiliência de cidades e projetos de infraestrutura.

Nesse contexto, seguros e resseguros deixam de ocupar apenas uma posição posterior à ocorrência de um desastre. A tendência é que sejam incorporados desde a etapa de planejamento dos projetos, ajudando governos e empresas a identificar vulnerabilidades, estabelecer mecanismos de proteção e reduzir impactos financeiros.

Para grandes concessões, ativos urbanos e eventos de grande porte, a estruturação preventiva das coberturas pode representar uma camada adicional de segurança para investimentos públicos e privados. Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes e severos, antecipar o risco deixa de ser uma escolha e passa a fazer parte da própria sustentabilidade econômica dos projetos.

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