Canetas emagrecedoras podem elevar custos dos planos de saúde e mudar estratégia das empresas

A possível ampliação do acesso aos medicamentos conhecidos como “canetinhas emagrecedoras” pode provocar mudanças importantes no mercado de planos de saúde e no modelo de benefícios oferecidos pelas empresas. Com a expectativa de fabricação nacional dos medicamentos análogos de GLP-1 pela EMS, especialistas apontam que uma eventual inclusão desse tratamento na cobertura obrigatória dos planos de saúde poderá aumentar os custos das operadoras e refletir nos reajustes dos contratos empresariais.

Segundo análise da Alper Seguros, o principal fator que hoje limita o uso desses medicamentos é o alto custo pago diretamente pelos pacientes. No entanto, caso as operadoras passem a custear os tratamentos, seja por decisão regulatória da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ou por meio de ações judiciais, a tendência é de crescimento expressivo da demanda.

O superintendente médico de Gestão de Saúde e Risco da Alper Seguros, Claudio Tafla, explica que a entrada de um terceiro responsável pelo pagamento dos medicamentos tende a ampliar significativamente sua utilização. “Se tivermos um terceiro como fonte pagadora, mesmo que este custo afete a sinistralidade dos planos de saúde ou entre por processos de judicialização, haverá uma maior utilização e demanda por parte da população e por prescrição de profissionais de saúde. Este efeito de cobertura do custeio financeiro, quer seja direto ou indireto, já aconteceu no passado em outras terapias”, afirma.

De acordo com o executivo, os impactos financeiros não apareceriam de forma imediata. Ele explica que as operadoras precisam comprovar, por meio de estudos atuariais, que houve aumento dos custos antes de solicitar reajustes à ANS. Esse processo costuma levar cerca de 12 meses, o que significa que os efeitos seriam percebidos gradualmente nas renovações dos contratos corporativos.

Apesar desse cenário, o especialista ressalta que estudos internos da companhia indicam que o uso controlado e acompanhado dos medicamentos pode gerar economia no longo prazo. A redução de casos de obesidade e de doenças associadas, como diabetes e problemas cardiovasculares, pode diminuir despesas futuras com tratamentos mais complexos e cirurgias bariátricas. Ainda assim, a consultoria alerta que a judicialização e o uso sem critérios podem comprometer esse equilíbrio, tornando necessária uma análise individual de cada contrato.

A discussão também traz reflexos para a gestão de benefícios nas empresas. Como o tratamento está relacionado principalmente ao uso contínuo de medicamentos, cresce a necessidade de rever os modelos tradicionais de assistência à saúde. Entre as alternativas avaliadas estão os Programas de Benefício em Medicamentos (PBMs), subsídios para compra de medicamentos e modelos de coparticipação, que podem oferecer maior flexibilidade aos colaboradores sem comprometer o orçamento das empresas.

A diretora de Gestão de Saúde e Riscos da Alper Seguros, Paula Gallo, destaca que esse novo formato exige conscientização dos funcionários sobre a importância de equilibrar diferentes benefícios. “Já vivenciamos que a população mais jovem tende a investir mais em cuidados de saúde do tipo academia, alimentação e transporte do que em preventivos para planos de saúde. E isso pode ser um risco, pois, apesar da juventude, estarão sujeitos a urgências e emergências que não conseguiriam financiar se não tiverem o respaldo de um plano de saúde, mesmo que básico. Esse cuidado precisa ser gerenciado”, afirma.

Para a executiva, a evolução dos benefícios corporativos não significa o fim dos planos de saúde tradicionais. Na avaliação da diretora, a tendência é que diferentes modelos convivam de forma complementar, formando um ecossistema de bem-estar capaz de oferecer mais alternativas aos colaboradores e, ao mesmo tempo, contribuir para conter o crescimento dos custos da saúde suplementar, que historicamente supera a inflação.

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