O aumento das temperaturas na Suíça está criando um novo desafio para a gestão de riscos e para o mercado de seguros. Embora o país seja reconhecido pela preparação para enfrentar enchentes, tempestades e outros desastres naturais, o calor extremo vem se consolidando como uma ameaça crescente, capaz de agravar danos à saúde, à agricultura, ao abastecimento de água, à infraestrutura e até potencializar a ocorrência de outros eventos climáticos.
Esse cenário foi destacado pela Swiss Re, que lançou a iniciativa Resilient Switzerland para ampliar o debate sobre adaptação às mudanças climáticas e fortalecer a capacidade do país de responder aos novos riscos. Como parte do projeto, a resseguradora promoveu, em 26 de junho, o primeiro Schweizer Resilienz-Tag, encontro que reuniu representantes do setor público, empresas, comunidade científica e mercado de seguros para discutir medidas práticas de adaptação ao calor extremo.
O presidente da Swiss Re na Suíça, Gianfranco Lot, afirmou que o país possui uma estrutura consolidada para lidar com enchentes e tempestades, mas enfrenta um desafio diferente quando o assunto é calor extremo. “O calor é um risco menos visível, mais difícil de ser segurado e capaz de ampliar riscos que a Suíça já administra bem. Nesse contexto, resiliência significa investir em soluções como áreas sombreadas nas cidades, ambientes climatizados em instituições de saúde, horários mais seguros para trabalhadores expostos ao sol e mecanismos de compartilhamento de riscos quando as perdas não podem ser evitadas”, destacou.
Dados climáticos mostram que a Suíça está aquecendo mais de duas vezes acima da média global. Atualmente, o país registra entre 10 e 15 dias por ano com temperaturas iguais ou superiores a 30°C, número que era de aproximadamente cinco dias em 1990.
As cidades são as áreas mais afetadas. Além de aquecerem mais rapidamente durante o dia, elas demoram mais para perder calor durante a noite, podendo registrar temperaturas até 6°C superiores às das regiões rurais. As chamadas noites tropicais, quando a temperatura permanece acima dos 20°C, dificultam o resfriamento das construções e a recuperação do organismo.
Os impactos também preocupam na área da saúde. O calor intenso aumenta o risco de desidratação, insolação, doenças cardiovasculares e problemas respiratórios, principalmente entre idosos e pessoas com doenças preexistentes. Como exemplo, a Swiss Re lembra que a onda de calor registrada na Europa em 2003 elevou em cerca de 1,5% a mortalidade na Suíça naquele ano, pressionando o sistema de saúde.
Para o mercado de seguros, outro ponto de atenção é o efeito indireto do calor sobre outros desastres naturais. Segundo dados do Swiss Re Institute, as enchentes continuam sendo o principal risco natural segurado no país, respondendo por aproximadamente 60% das perdas anuais seguradas relacionadas a catástrofes naturais.
No entanto, períodos prolongados de calor deixam o solo mais seco e menos capaz de absorver água, aumentando a probabilidade de enchentes repentinas quando ocorrem chuvas intensas. A seca também torna as lavouras mais vulneráveis ao granizo, enquanto o aumento das temperaturas e o degelo do permafrost elevam o risco de deslizamentos nas regiões alpinas.
Um exemplo recente foi a avalanche de rochas e gelo em Blatten, ocorrida em maio de 2025, que gerou perdas seguradas de aproximadamente 320 milhões de francos suíços e evidenciou como as mudanças climáticas já estão alterando o perfil dos riscos enfrentados pelo setor.
Diante desse cenário, a Swiss Re defende que a adaptação ao calor extremo depende principalmente de ações locais. Entre as medidas apontadas estão o planejamento urbano voltado para reduzir ilhas de calor, ampliação de áreas verdes, criação de espaços com sombra, preservação de superfícies permeáveis e adequação de residências, escolas, hospitais e ambientes de trabalho às novas condições climáticas.
Segundo a resseguradora, fortalecer a cooperação entre governos, empresas, comunidade científica, sociedade civil e o mercado de seguros será essencial para aumentar a resiliência diante dos impactos cada vez mais frequentes das mudanças climáticas.
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