A retomada da tributação sobre dividendos, prevista na reforma da tributação da renda pela Lei 15.270/2025, começa a mudar a forma como empresas brasileiras organizam a remuneração de sócios e a distribuição de lucros. Com o fim da isenção que vigorou por mais de duas décadas, o repasse de dividendos passa a impactar diretamente a carga tributária, exigindo decisões mais estratégicas e um olhar de longo prazo sobre a saúde financeira dos negócios.
Mais do que um simples aumento de impostos, a nova regra impõe uma revisão dos modelos de gestão, governança e planejamento financeiro. Segundo o CEO da GFX, consultoria especializada em planejamento financeiro e empresarial, Philippe Enke Mathieu, muitas empresas usaram a isenção de dividendos como instrumento legítimo de organização societária, mas o cenário mudou. “Durante mais de duas décadas, a isenção de dividendos foi usada como uma ferramenta legítima de organização da remuneração dos sócios. Com a nova regra, quem não se antecipar corre o risco de comprometer margens, fluxo de caixa e até a sustentabilidade do negócio”, avalia.
Para o executivo, adotar soluções pontuais não é suficiente. O momento exige uma análise mais profunda da estrutura empresarial, capaz de alinhar estratégia tributária, crescimento e segurança jurídica. “O impacto da tributação pode ser reduzido, mas isso passa por decisões estruturais e planejamento contínuo”, reforça Mathieu.
Diante desse novo cenário, o CEO da GFX destaca sete medidas práticas que podem ajudar as empresas a se adaptarem e evitarem prejuízos. A primeira é revisar a política de distribuição de lucros, avaliando frequência e valores pagos aos sócios, de forma a preservar o caixa e evitar surpresas fiscais. Outra ação importante é antecipar o planejamento de lucros, analisando resultados acumulados e as regras de transição. “Quem antecipa o planejamento consegue organizar melhor a distribuição de lucros e reduzir perdas desnecessárias com impostos”, explica.
A reavaliação da forma de remuneração dos sócios também ganha relevância, buscando equilíbrio entre pró-labore, dividendos e outros instrumentos legais. Além disso, fortalecer a governança, com registros contábeis organizados e processos bem definidos, passa a ser essencial para reduzir riscos fiscais e garantir segurança jurídica.
O especialista ainda recomenda considerar a retenção de lucros para reinvestimento, estratégia que pode ser mais vantajosa do que a distribuição imediata em empresas em fase de crescimento. Analisar a estrutura societária também faz parte do processo, para verificar se o modelo atual continua sendo o mais eficiente sob os aspectos tributário, financeiro e sucessório.
Para Mathieu, a tributação de dividendos representa uma mudança estrutural no ambiente de negócios brasileiro e reforça o papel do planejamento como diferencial competitivo. “As alterações não devem ser vistas apenas como um custo adicional, mas como um convite à profissionalização da gestão. Quem se prepara agora transforma o desafio em vantagem competitiva no futuro”, conclui.






